Talvez sejam os telhados multicoloridos do Caminito ou mesmo o crepitar das churrascarias populares, mas o certo é que alguma coisa desnorteia os clubes brasileiros que visitam o bairro de La Boca. A superioridade do Boca Juniors contra os times do Brasil em mata-mata da Libertadores é alarmante: os xeneizes passaram de fase (ou foram campeões) em 17 dos 22 confrontos eliminatórios. Ou seja, apenas cinco clubes podem se vangloriar de já terem superado a esquadra azul y oro do sul de Buenos Aires — entre eles, é claro, o próprio Corinthians, na decisão de 2012. Hoje, às 21h30, os paulistas retornam ao gramado da Bombonera para o segundo confronto das oitavas de final (a primeira partida acabou com empate em zero.)
A tarefa dos alvinegros será inglória, ao menos do ponto de vista histórico. Porque o retrospecto do Boca Juniors jogando em casa contra brasileiros assusta mais do que o momento da equipe comandada por Sebastián Battaglia. No primeiro embate eliminatório entre o Boca e brasileiros pela Libertadores, ocorreu também o único triunfo visitante às margens do Riachuelo: na decisão de 1963, Pelé desfilou sua majestade e só não fez chover choripan sobre a capital argentina.
Depois do jogo que valeu o bicampeonato santista, jamais o Boca Juniors voltou a experimentar um tombo diante dos vizinhos brasileiros quando decidia em seus domínios — derrotas houve, mas eliminações jamais. É verdade que foram apenas mais cinco confrontos em terras argentinas: Flamengo, nas quartas de 1991; Vasco nas quartas de 2001; São Caetano nas quartas de 2004 (esse jogo foi disputado no Cilindro, estádio do Racing); Athletico-PR nas oitavas de 2019; e Inter nas oitavas de 2020. A apresentação de gala de Pelé parece ter sido, ao mesmo tempo, bênção e maldição: depois daquele jogo, o Boca ficou nada menos que 45 anos (ou onze confrontos) sem conhecer uma eliminação no confronto contra brasileiros, impressionante sequência ainda mais saliente na época da orquestra de cordas e sarrafos regida por Riquelme, que nos anos 2000 deixou tantos clubes daqui esparramados pelo caminho. Nesses quase sessenta anos de embates, as vítimas preferenciais foram Palmeiras e Cruzeiros, com três eliminações. Os xeneizes só voltariam a ser derrubados contra o Fluminense, pela semifinal de 2008, na antessala daquela decisão contra a LDU, que seria traumática para os cariocas.
Se a Bombonera é capaz de intimidar mesmo as equipes mais cascudas, trazer a segunda partida para o Brasil tampouco tem sido bom presságio para os brasileiros. Na verdade, talvez o retrospecto do Boca seja ainda mais impressionante quando faz o jogo decisivo por aqui: em quinze confrontos, avançou em nada menos do que onze oportunidades. No entanto, é importante salientar que nas duas últimas visitas ao território brasileiro a caipirinha desceu mais amarga do que de costume: são duas eliminações seguidas, o baile sofrido contra o Santos na semifinal de 2020 e a queda nos penais diante do Atlético-MG pelas oitavas de 2021.
Na única vez em que o confronto ocorreu fora de Brasil e Argentina, os xeneizes também levaram a melhor: após uma vitória para cada lado, venceram o Cruzeiro nos pênaltis, na partida de desempate da decisão de 1977, disputada no Centenário, conquistando o primeiro título do clube e evitando o bi consecutivo dos mineiros. Aliás, se é verdade que quatro das seis Libertadores do Boca Juniors foram vencidas contra nosotros (além do Cruzeiro em 1977, também Palmeiras em 2000, Santos em 2003 e Grêmio em 2007), também vale lembrar que a única perdida sem Pelé em campo foi justamente para o Corinthians, também por isso um hóspede que nessa noite pode esperar de tudo, exceto doce de leite e boas-vindas. Os 22 confrontos entre Boca Juniors e clubes brasileiros em mata-mata de Libertadores
Classificações brasileiras:
1963 — Santos (final)
2008 — Fluminense (semi)
2012 — Corinthians (final)
2020 — Santos (semi)
2021 — Atlético-MG (oitavas)
Classificações do Boca Juniors:
1977 – Cruzeiro (final) — jogo disputado em Montevidéu
1991 — Corinthians (oitavas)
1991 — Flamengo (quartas)
2000 — Palmeiras (final)
2001 — Vasco da Gama (quartas)
2001 — Palmeiras (semi)
2003 — Paysandu (oitavas)
2003 — Santos (final)
2004 — São Caetano (quartas)
2007 — Grêmio (final)
2008 — Cruzeiro (oitavas)
2012 — Fluminense (quartas)
2013 — Corinthians (oitavas)
2018 — Cruzeiro (quartas)
2018 — Palmeiras (semi)
2019 — Athletico-PR (oitavas)
2020 — Inter (oitavas)



