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Lula e Bolsonaro ignoram empresários e focam em religiosos na reta final

Tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Jair Bolsonaro (PL) focaram neste segundo turno das eleições em agendas voltadas ao segmento religioso e em impulsionar as candidaturas com atos e comícios políticos.

O atual presidente e candidato à reeleição foi quem mais recorreu às pautas religiosas durante os quase 30 dias que separaram o primeiro do segundo turno. O movimento não é à toa, uma vez que é do segmento que vem a vantagem contra Lula nas intenções de voto, em especial no que diz respeito ao voto do eleitor evangélico.

Ao todo, Bolsonaro esteve presente ou participou de, pelo menos, nove atos em que a religião era o tema principal. Somados a essas participações estão os comícios políticos, que representam mais de 60% das agendas de campanha.

Grande parte dos atos se concentrou na região Sudeste, onde o atual titular do Palácio do Planalto esteve por 17 ocasiões. Os mais estados mais visitados pelo presidente foram São Paulo e Minas Gerais. No estado mineiro, o presidente tenta reverter o cenário adverso para o petista. A vitória entre o eleitorado de MG pode ser determinante para uma virada de Bolsonaro.

O candidato à reeleição também foi ao Rio de Janeiro, onde tem ampla vantagem sobre Lula, em movimento para buscar manter o bom desempenho entre os cariocas. Além do Sudeste, Bolsonaro esteve no Sul em duas ocasiões e no Norte, em uma. Ele visitou o Nordeste por cinco vezes e foi ao Centro-Oeste em nove oportunidades. Vale destacar que é na capital da República que o presidente está baseado.

Os números são de levantamento feito pelo Metrópoles com base nas agendas divulgadas pelas campanhas dos presidenciáveis. A pesquisa considerou o período entre 3 e 28 de outubro, data de início e fim da campanha pelo segundo turno.

O levantamento mostra, também, que diferentemente do primeiro turno, Lula e Bolsonaro ignoraram o setor empresarial na reta final das eleições. Enquanto o atual presidente se encontrou, na primeira etapa das eleições, por três vezes com o empresariado, Lula recorreu aos empresários em duas oportunidades.

O único aceno ao segmento neste segundo turno foi do petista, que divulgou a “Carta para o Brasil do amanhã” com compromissos para diferentes áreas, incluindo o setor empresarial.

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Guerra religiosa

Ciente da vantagem de Bolsonaro entre os evangélicos, a campanha de Lula decidiu trabalhar para conquistar o percentual de indecisos dentre os fiéis. O petista sabia que não poderia ignorar a realidade de um país majoritariamente católico e o um terço de eleitores que se identificam com a religião evangélica. Diante disso, decidiu travar uma verdadeira “guerra religiosa” com o atual presidente por estes votos.

No início, a campanha buscou rebater as informações falsas da oposição de que, se eleito, o petista trabalharia pelo fechamento de igrejas e templos, além da suposta defesa das pautas caras aos conservadores, como descriminalização das drogas e o aborto.

No entanto, o ex-presidente viu a maré virar após apoiadores revirarem vídeos antigos de Bolsonaro frequentando lojas maçônicas, que provocaram revolta entre os fiéis mais conservadores. Apoiadores de Lula aproveitaram o momento para surfar na polêmica de Bolsonaro. Veio daí o movimento de tentar colar a imagem do petista ao segmento.

O petista esteve em ao menos quatro oportunidades reunido com lideranças religiosas. O tema também foi recorrentemente abordado por ele durante as várias coletivas de imprensa convocadas (12 ao todo) e e participações em entrevistas para as mais diferentes plataformas. Em uma dessas agendas, ele lançou uma carta aos evangélicos, em que rechaça a possibilidade de legalização das drogas e do aborto.

Enquanto Bolsonaro procurou visitar todas as regiões do país, Lula ignorou o Norte e o Centro-Oeste. O petista esteve em quatro oportunidades no Nordeste e visitou o Sul em apenas uma ocasião. Assim como o rival, Lula focou a campanha no Sudeste, tendo visitado o Rio de Janeiro e Minas Gerais por quatro e três vezes, respectivamente. São Paulo é o estado em que está a coordenação de campanha do ex-presidente e também por este motivo foi o estado em que por mais vezes esteve, em 15 oportunidades.

Pregar para não convertidos

O cientista político Leonardo Paz avalia que a decisão das campanhas em buscar o voto religioso e focar no Sudeste é para conquistar eleitores ainda indecisos. “Primeiro, do ponto de vista econômico, a minha impressão é de que ambos os candidatos já deram o tom, as grandes tinturas já foram datas, já consolidaram as próprias alianças e os apoios que conseguiram buscar para o segundo turno. O momento, agora, é, mais do que ganhar voto, baixar a rejeição”, explica.

“Quando você olha isso dentro do espaço amostral, você vê que 10% do eleitorado ainda não definiu o voto e este é um público bem retratado: são mulheres, de classe média e estão no Sudeste. Então, isso pauta a agenda. No caso da pauta religiosa, ela foi introduzida fortemente pelo Bolsonaro. É onde ele acha que navega melhor e Lula comprou essa agenda porque estava vendo sua rejeição aumentar”, completa o analista de Inteligência Qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A cientista política Sabrina Bomtempo ressoa a análise e avalia que o segmento, em especial o de evangélicos, são importantes armas do bolsonarismo para tentar virar o resultado das eleições. “Bolsonaro sempre usou a base evangélica para impulsionar a campanha e girar votos, visto que estava perdendo em outros setores e segmentos. Até pelo bom desempenho de Bolsonaro entre evangélicos, Lula viu que precisaria disputar o voto com ele e investiu em agendas religiosas”, disse.

O desempenho do petista surtiu efeito, segundo a analista política. “As pesquisas mostram que tem afetado positivamente para a campanha do Lula, que tem crescido entre evangélicos, enquanto Bolsonaro tem regredido. Por exemplo, quando se abordou o caso do ‘pintou um clima’, afetou drástica e principalmente o voto das mulheres em Bolsonaro, que perdeu o público evangélico por seus próprios erros de campanha e atitudes”, defende.

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